sexta-feira, 1 de maio de 2009

Capoeira Angola: ginga, mandinga e resistência na floresta.


Este é o tema central que dialoga com a realidade da Amazônia e com seus legados culturais de matriz africana que hoje se deparam com enormes dificuldades de perpetuação de forma a legitimar sua ancestralidade.
Inserida nesse tema, a Associação Cultural “Eu sou Angoleiro” (ACESA) desenvolveu, no Fórum Social Mundial de 2009 em Belém do Pará, atividades culturais de Capoeira Angola e de Dança Afrobrasileira. Seguindo o encaminhamento do Mestre João Bosco, o trabalho foi coordenado pelo Contra-Mestre Bira Marajó (PA) e o Treinel Gercino Alves (MG), sendo vivenciado por capoeiristas do Brasil e do mundo inteiro durante 4 (quatro) dias de trabalho.
No primeiro dia de atividade houve uma grande passeata de abertura do FSM, reunindo quase 100 mil pessoas, na qual o grupo participou apresentando a musicalidade da bateria da capoeira durante todo o percurso. No segundo dia, foi desenvolvida, na Universidade Federal do Pará (UFPA), uma oficina de Capoeira Angola com aproximadamente 50 pessoas de várias localidades do mundo. No terceiro dia, houve a realização do “Aldeia Kilombo Século XXI” em que foi ministrada uma grande oficina de Dança Afrobrasileira, pelos dançarinos de Belo Horizonte Gercino Alves, Junia Bertolino e Flávia Soares, finalizando este dia com uma grande roda de Capoeira Angola que reuniu aproximadamente 40 pessoas. Por fim, no último dia, foi realizada uma roda de Capoeira de abertura juntamente com uma exposição fotográfica de trabalhos realizados nos quilombos e, posteriormente, com um compartilhamento de experiências relacionadas à importância da cultura na vida de cada indivíduo, bem como, da sociedade em geral.
A frente de trabalho da ACESA, residente em Belém–PA, é coordenada pelo Contra-Mestre Bira Marajó e desenvolve um trabalho com cultura de raiz através da Capoeira Angola em algumas Comunidades Quilombolas como na ilha do Marajó (Bacabal) e no interior do Estado do Pará (Itacoã-mirin, Macapazinho, e Umarizal) há aproximadamente 4 (quatro) anos. Tendo como intuito trabalhar a Capoeira Angola como um instrumento para estabelecer uma reflexão acerca da história do negro na Amazônia; da importância de suas atividades culturais para o fortalecimento de sua identidade na sociedade; da valorização das sabedorias construídas na comunidade e repassadas através de seus antepassados; e do estabelecimento de uma educação ambiental voltada à importância que a floresta exerce sobre às formas de agricultura vivida pelos Quilombolas na Amazônia.
A ACESA em Belém também incentiva outras manifestações culturais de raiz africana como o samba de cassete, que ó oriundo da Comunidade Quilombola de Umarizal município de Baião no interior do Pará, composto por 80 (oitenta) senhoras e senhores que até hoje sustentam suas raízes através dos tambores, cassetes, e cantos de lamúria que fazem referencia a sua ancestralidade.

Coro dos senhores:
“...ai minha mãe seu filho vai embora,
ai minha mãe, seu filho vai embora
mas se despede com uma dor no coração
mas se despede com uma dor no coração

Coro de mulheres:
“...ai que saudade que eu tenho dessa terra,
ai que saudade que eu tenho dessa terra,
é do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos,
é do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos...”

O Samba de Cassete também se apresentou no FSM 2009, inebriando a todos com sua indumentária de saias longas e floridas e sua dança específica do legado africano quem vem se perpetuando desde os tempos oficiais da escravidão no estado do Pará.
Este Fórum Social Mundial 2009 em Belém do Pará foi uma grande oportunidade, uma vez que foi desenvolvido atividades culturais com as crianças e os adolescentes Quilombolas conseguindo fortalecer o trabalho de capoeira nestas comunidades. E ainda mais, pôde expor para o mundo a importância dessa ancestralidade cultural nos Quilombos da Amazônia, percebendo como a ginga e a mandinga no dia-a-dia dessas crianças e adolescentes tem uma relação muito intima com a floresta, adquirindo uma maior propriedade no processo de resistência cultural através da Capoeira Angola, como foi manifestado nas palavras de Ualace, jovem quilombola: “...por causa da capoeira passei a perder o gosto de ficar bebendo e fumando no bar a noite inteira, hoje eu fico em casa por que de manhã cedo ajudo meu pai no trabalho com a horta e depois vou pra escola...”.
Desta forma, podemos perceber que estas formas de resistência estão relacionadas a um outro conhecimento que se distancia do fazer acadêmico, e se alinha às sabedorias intrínsecas nas tradições familiares, nas habilidades de convívio em comunidade nos Quilombos, nas manifestações culturais de raiz que se perpetuam até hoje e sempre percebendo que a expressão corporal do negro desde o trabalho ao fazer artístico, ainda é uma forte particularidade cultural de nossa atualidade.